Comecei a estudar para concurso público no final de 2012 por desespero. Com exceção de algumas carreiras da magistratura e daqueles que crescem com objetivo de vida de ser policial, a maioria das pessoas que eu conheço e que chegaram ao caminho dos concursos foi por falta de opção melhor mesmo. Nenhuma criança cresce dizendo que quer ser Analista da Receita Federal.
E normalmente quando todas as outras opções são péssimas e a gente percebe que o concurso pode garantir um bom salário com uma qualidade de vida OK vem aquela sensação de perda de tempo por não ter pensado antes nisso. Acontece com a maioria das pessoas que estão nesse caminho e comigo foi a mesma coisa, fiquei alguns anos tentando me acertar em uma carreira que eu não gostava e sem nenhum sucesso e de repente tive esse insight.
Sou Publicitária. Eu me considerava uma pessoa criativa, aliás todos me consideravam uma pessoa criativa e eu pensei que poderia usar essa skill na minha carreira profissional. Gostei muito do curso e trabalhei na área em diversas empresas, odiei quase todas, fui mandada embora de várias e nunca aceitei o fato de eu não conseguir achar um caminho profissional estável. Então fiquei tentando, fiz especialização, mudei para o interior, fiz mestrado e nada mudou, não fiquei bem e nem consegui estabilidade profissional e financeira.
Cansei de procurar satisfação e decidi me focar na estabilidade, precisava. Eu tinha 30 anos, nenhum dinheiro na minha conta e nenhuma ideia na manga. Eu tinha parado de trabalhar por um tempo com objetivo de focar em um mestrado e já fazia mais de um ano que não ganhava salário, o dinheiro já tinha ido pelo ralo. E também depois da minha última experiência frustrada de trabalho eu precisei de um tempo para ver se alguma ideia melhor aparecia, concurso público foi a minha melhor ideia.
Assim me tornei funcionária pública. Tudo começou com um pedido um pouco acanhado ao meu pai para que me ajudasse a financiar um curso preparatório e ele me apoiou, eu não tinha mais nada na manga. Escolhi um concurso pra focar e me joguei de cabeça e sem olhar pra trás, não deu certo dessa vez e nem de muitas próximas. Mas uma hora deu, estudo é cumulativo e essa é a vantagem de de não desistir desse caminho, depende mais da gente que dos outros.
O que achei? Valeu a pena por um período. A minha experiencia pessoal foi boa, vivi coisas que jamais achei que viveria. Aprendi, cresci, me transformei. Tive estabilidade em todos os sentidos e tranquilidade para cuidar dos filhos que depois tive. É muito louco saltar da iniciativa privada para a vida pública, é bem diferente por motivos bons e ruins, o que se pode encontrar depende do órgão público e das escolhas e trajetória do ingressante. Eu quis qualidade de vida e estabilidade e encontrei bem mais.
domingo, 28 de setembro de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
Despedida
Eu não sei dizer se você é o homem mais egoísta que eu conheci porque acho que conheci muitos homens egoístas, mas nenhum deles foi tão importante pra mim a ponto de eu lembrar agora, nenhum deles foi tão importante pra mim quanto você. Eu não digo isso por falta de amor ou falta de coisas, tenho certeza que o amor é abundante e você me deu muito mais coisas do que eu esperava. Digo isso porque cada gota de amor e cada centésimo de coisa foi condicionado. Houve condições tão pesadas, com juros tão altos de um preço já caro, que eu não dei conta de cumprir e isso me destruiu em diversos momentos, me enfraqueceu demais. Gastei muita energia buscando o seu amor, tentando te dar o amor na forma em que me era cobrado. Eu sempre busquei o seu amor desesperadamente porque nem sempre tive a certeza de que o tinha, porque a pesar de você ser meu porto seguro e eu não dar um passo sem ouvir sua opinião, o seu humor me oscilava (um porto fica mais seguro em mares calmos e a nossa praia sempre foi brava). Eu vivi tentando dar respostas às indagações que imaginei que você tinha porque eu queria viver de forma plena esse amor que sempre teve o ritmo que você deu a ele. Um amor tão grande e tão próximo que eu pensei que pudesse pagar qualquer preço e aceitar qualquer condição por ele, mas há tempos já sei que não posso, que repetir as mesmas situações sempre não passa de vício, do nosso vício. Então me despeço para que pela primeira vez na vida eu consiga viver nossa relação sem as contas habituais. Para que eu possa viver esse amor tão sabidamente grande que nos trouxe até esse ponto. Final.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Horizonte Nublado
Deve ter gente que sabe pra onde vai, que tem certeza de que está seguindo o caminho certo. Já eu não sou esse tipo de gente com direção, apenas caminho. Não que eu não queira chegar aos lugares que sonho, não que eu não tenha planejado nada. Acontece que que meus sonhos mudam muito e os meus planos nem sempre dão certo. Achei mais fácil focar no dia de hoje, no que pode tornar meu dia mais legal. Claro que penso no futuro, no amanhã. Só não consigo enxergar.
Karine
Foi esgotada para o trabalho, deixando a casa por varrer, a louça por lavar e a cama por arrumar. Estava tudo um caos. Tudo! No escritório tinha uma pilha de demandas para dar conta, fornecedores para ligar, e-mails para responder e documentos para conferir. Estava muito cansada. Estava exausta e ninguém parecia notar.
Ela tinha que escolher entre fazer a janta ou a unha, ficar com os filhos ou depilar. Normalmente optava pela janta e os filhos. O marido? Trabalhava quase todo o tempo e já não sabia se era uma escolha. Os dois não ficavam a sós a muito, a intimidade se transformou em um check list de afazeres divididos e de contas compartilhadas.
Aos finais de semana cuidava da casa, do lazer das crianças, dos pais idosos e das compras de supermercado que nunca tinha tempo de fazer durante a semana. E do que mais fosse necessário. Algumas vezes tinha vontade de deitar na cama, trancar a porta do quarto e dormir profundamente durante dias, mas o despertador continuava tocando as 5h40 da manhã.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Alice
Tímida. Se ela pudesse escolher algo que a descreveria a
palavra seria essa. Estava apaixonada, mas tinha para ela que um homem como
aquele preferia as mulheres mais espontâneas, daquelas que chegam nos ambientes
já dizendo o que pensam, brincando e hipnotizando as pessoas ao redor. Ela
sempre admirou essas mulheres que, independente da beleza ou posição, tinham um
charme arrebatador vindo provavelmente da autoconfiança e de um
certo sentimento de amparo. Coisas que ela mesma nunca teve. Sabia.
Sentia-se invisível. Era certamente um tipo que ninguém
reparava, aquela colega de classe que o nome fugia ou aquela moça do trabalho um
pouco antipática e muito quieta. Sabia
que não era feia e considerava-se até bonita quando colocava uma roupa adequada
no seu corpo curvilíneo, uma que escondesse aquela barriguinha indesejada saliente, e também tinha um belo sorriso embora de nada adiantava isso ou seu esforço em frente ao espelho, achava-se desinteressante. Não conseguia
expressar-se bem, tinha vergonha de expor suas opiniões mesmo entre conhecidos e ficava
vermelha, gaga e sem reação caso recebesse qualquer elogio de um homem. E se
fosse um elogio dele poderia até vomitar.
Gostava de ir direto pra casa depois do trabalho, estava lendo um livro
ótimo que a esperava no criado mudo ao lado da confortável cama de casal com a
qual havia se presenteado recentemente e na qual nada poderia afetá-la, não teria
que correr o risco de entrar em uma conversa que não saberia continuar ou de
ficar deslocada, como costumava ficar em diversas situações devido a evidente
falta de habilidades sociais e a aparente invisibilidade. Mas resolveu ir ao
happy hour apenas porque algo dentro dela fazia com que se sentisse mais viva
apenas por estar no mesmo ambiente que ele. E sentia-se patética por isso.
Foi ao toalete feminino com a necessaire, retocou a
maquiagem, penteou o cabelo, lavou e passou creme nas mãos. Chateou-se por não
ter um perfume na bolsa e por ter vestido naquela manhã a blusa preta e surrada que via pelo espelho, mas como iria saber que seria
convidada para o happy hour? E também não importava, ele não a enxergaria de
qualquer forma, ela queria apenas observá-lo de longe para distrair-se um pouco. Assim
que saiu do banheiro esbarrou em Moreno, um colega do departamento de Recursos
Humanos, que a chamou “Ei, você não vem?”. Disse que ia e foram juntos
conversando sobre amenidades. Nada que ela estivesse prestando atenção.
Iam caminhando, o bar era logo ali na esquina. Ela, assim que
chegou na rua acendeu um cigarro e assim que deu a primeira tragada sentiu-se
ótima. Depois mudou de ideia quanto ao programa, talvez porque não quisesse que
nada estragasse o seu bem estar e o barulho, a bebida e as conversas enfadonhas
acabariam com o seu recém adquirido bom humor, tanto quanto ser completamente
ignorada por ele. Disse a Moreno que não podia ir ao bar, desculpou-se sem
necessidade e mentiu que havia acabado de lembrar de um compromisso, um jantar
com uma amiga já marcado, teria que ir embora. Foi.
No caminho de volta,
enquanto dirigia, ligou para Leila afim de saber se a amiga e companheira de
apartamento de fato
gostaria de jantar com ela em algum restaurante bacana, poderiam beber umas
cervejas para brindar a noite quente, mas Leila explicou que estava presa no trabalho como
sempre. Então, ainda sentindo-se bem, tomou o rumo da sua casa escutando seu
velho CD do Cazuza, no caminho passou no supermercado e comprou uma lasanha congelada, uma salada de frutas já
pronta e uma garrafa de vinho.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Intimidade
A intimidade é um dos sentimentos mais bonitos que duas pessoas podem construir porque é um dos únicos que só existe mediante reciprocidade. Vivenciar a intimidade pareia indivíduos em qualquer relação e em qualquer circunstância.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Rota X
P38776
dirigiu na velocidade permitida naquela via rumo à oficina mecânica. A cada 200
quilômetros percorridos P38776 precisava ir à oficina mecânica arrumar o seu
veículo.
Chegando à
oficina encontrou P11144444 que estava a espera do conserto do seu veículo com
problemas idênticos aos do veículo de P38776. A cada 200 quilômetros
encontravam-se ali, na oficina.
P38776 - Frio,
não?
P11144444 -
ô!
P38776 – E por
qual rota seguirá agora?
P11144444 –
Pois bem, posso seguir pela rota A e pela rota X.
P38776 - E
quais as perspectivas?
P11144444-
Estou muito envolvido com a rota X, embora eu tenha 50% de chances de chegar ao
fundo do poço, 35% de chances de chegar a um abismo e 12% de chances de chegar
a lugares terríveis jamais previstos e imaginados. E possuo 3% de chances de encontrar
a felicidade plena.
P38776 -
Ah, entendo. Mas a rota A deve ter seus encantos.
P11144444 -
A rota A é bastante promissora, tenho 75% de chances de encontrar a
satisfação e chances equivalentes a 10% de encontrar a alegria, contra 15% de
chances de pegar estradas tortuosas que levam a caminhos insalubres e
perigosos.
P38776 –
Bom, parece que sabemos por qual rota seguirá.
P11144444 -
Sim – disse P11144444 olhando para os pés, rosto rubro, olhos vidrados – vou pela
rota X.
P38776
meneou a cabeça, franziu a testa e abriu a boca levando os dedos espalmados para
cima, quase que em um sinal de contenção. Porém, foram interrompidos pelo
mecânico avisando que havia finalizado o conserto do veículo de P11144444. Esse, ainda
envergonhado, rapidamente acenou para P38776 sem olha-lo nos olhos e seguiu seu caminho.
Dois anos
depois P38776 dirigia na velocidade permitida naquela via rumo à oficina mecânica
quando avistou P11144444 que por ali passava.
P38776 – Há
quanto tempo não o vejo! Temos que marcar um churrasco com o pessoal.
P11144444 –
Sem dúvidas, vamos combinar o mais breve possível.
P38776 –
Preocupei-me com você, esperava encontra-lo na oficina para... ah, vejo que não
cometeu nenhum desvario! A rota A foi generosa, seu veículo está em perfeito estado!
P11144444 –
Fui pela rota X.
P38776 –
Pois teve a sorte de chegar até a felicidade plena!?
P11144444 –
Oh não! Cheguei ao fundo do poço. Isso logo após alcançar lugares terríveis
jamais previstos e imaginados nos quais fiquei preso por longos períodos,
impedido de voltar.
P38776 –
Que coisa horrível! E obvia. Mas creio que aprendeu
a lição e agora vai fazer escolhas mais acertadas. Está claro que foi por isso que nunca mais o vi na oficina.
P11144444 –
Não – disse P11144444 contendo o riso no canto direito dos seus lábios
entreabertos – Na rota X eu aprendi a consertar meu veículo permanentemente e quando
aqui voltei já sabia como mantê-lo intacto. Não
preciso mais ir à oficina.
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