terça-feira, 10 de junho de 2014

Karine

Foi esgotada para o trabalho, deixando a casa por varrer, a louça por lavar e a cama por arrumar. Estava tudo um caos. Tudo! No escritório tinha uma pilha de demandas para dar conta, fornecedores para ligar, e-mails para responder e documentos para conferir. Estava muito cansada. Estava exausta e ninguém parecia notar. Ela tinha que escolher entre fazer a janta ou a unha, ficar com os filhos ou depilar. Normalmente optava pela janta e os filhos. O marido? Trabalhava quase todo o tempo e já não sabia se era uma escolha. Os dois não ficavam a sós a muito, a intimidade se transformou em um check list de afazeres divididos e de contas compartilhadas. Aos finais de semana cuidava da casa, do lazer das crianças, dos pais idosos e das compras de supermercado que nunca tinha tempo de fazer durante a semana. E do que mais fosse necessário. Algumas vezes tinha vontade de deitar na cama, trancar a porta do quarto e dormir profundamente durante dias, mas o despertador continuava tocando as 5h40 da manhã.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Alice

Tímida. Se ela pudesse escolher algo que a descreveria a palavra seria essa. Estava apaixonada, mas tinha para ela que um homem como aquele preferia as mulheres mais espontâneas, daquelas que chegam nos ambientes já dizendo o que pensam, brincando e hipnotizando as pessoas ao redor. Ela sempre admirou essas mulheres que, independente da beleza ou posição, tinham um charme arrebatador vindo provavelmente da autoconfiança e de um certo sentimento de amparo. Coisas que ela mesma nunca teve. Sabia.

Sentia-se invisível. Era certamente um tipo que ninguém reparava, aquela colega de classe que o nome fugia ou aquela moça do trabalho um pouco antipática e muito quieta. Sabia que não era feia e considerava-se até bonita quando colocava uma roupa adequada no seu corpo curvilíneo, uma que escondesse aquela barriguinha indesejada saliente, e também tinha um belo sorriso embora de nada adiantava isso ou seu esforço em frente ao espelho, achava-se desinteressante. Não conseguia expressar-se bem, tinha vergonha de expor suas opiniões mesmo entre conhecidos e ficava vermelha, gaga e sem reação caso recebesse qualquer elogio de um homem. E se fosse um elogio dele poderia até vomitar.

Gostava de ir direto pra casa depois do trabalho, estava lendo um livro ótimo que a esperava no criado mudo ao lado da confortável cama de casal com a qual havia se presenteado recentemente e na qual nada poderia afetá-la, não teria que correr o risco de entrar em uma conversa que não saberia continuar ou de ficar deslocada, como costumava ficar em diversas situações devido a evidente falta de habilidades sociais e a aparente invisibilidade. Mas resolveu ir ao happy hour apenas porque algo dentro dela fazia com que se sentisse mais viva apenas por estar no mesmo ambiente que ele. E sentia-se patética por isso.

Foi ao toalete feminino com a necessaire, retocou a maquiagem, penteou o cabelo, lavou e passou creme nas mãos. Chateou-se por não ter um perfume na bolsa e por ter vestido naquela manhã a blusa preta e surrada que via pelo espelho, mas como iria saber que seria convidada para o happy hour? E também não importava, ele não a enxergaria de qualquer forma, ela queria apenas observá-lo de longe para distrair-se um pouco. Assim que saiu do banheiro esbarrou em Moreno, um colega do departamento de Recursos Humanos, que a chamou “Ei, você não vem?”. Disse que ia e foram juntos conversando sobre amenidades. Nada que ela estivesse prestando atenção.

Iam caminhando, o bar era logo ali na esquina. Ela, assim que chegou na rua acendeu um cigarro e assim que deu a primeira tragada sentiu-se ótima. Depois mudou de ideia quanto ao programa, talvez porque não quisesse que nada estragasse o seu bem estar e o barulho, a bebida e as conversas enfadonhas acabariam com o seu recém adquirido bom humor, tanto quanto ser completamente ignorada por ele. Disse a Moreno que não podia ir ao bar, desculpou-se sem necessidade e mentiu que havia acabado de lembrar de um compromisso, um jantar com uma amiga já marcado, teria que ir embora. Foi.

 No caminho de volta, enquanto dirigia, ligou para Leila afim de saber se a amiga e companheira de apartamento de fato gostaria de jantar com ela em algum restaurante bacana, poderiam beber umas cervejas para brindar a noite quente, mas Leila explicou que estava presa no trabalho como sempre. Então, ainda sentindo-se bem, tomou o rumo da sua casa escutando seu velho CD do Cazuza, no caminho passou no supermercado e comprou  uma lasanha congelada, uma salada de frutas já pronta e uma garrafa de vinho.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Intimidade

A intimidade é um dos sentimentos mais bonitos que duas pessoas podem construir porque é um dos únicos que só existe mediante reciprocidade. Vivenciar a intimidade pareia indivíduos em qualquer relação e em qualquer circunstância.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Rota X


P38776 dirigiu na velocidade permitida naquela via rumo à oficina mecânica. A cada 200 quilômetros percorridos P38776 precisava ir à oficina mecânica arrumar o seu veículo.

Chegando à oficina encontrou P11144444 que estava a espera do conserto do seu veículo com problemas idênticos aos do veículo de P38776. A cada 200 quilômetros encontravam-se ali, na oficina.

P38776 - Frio, não?

P11144444 - ô!

P38776 – E por qual rota seguirá agora?

P11144444 – Pois bem, posso seguir pela rota A e pela rota X.

P38776 - E quais as perspectivas?

P11144444- Estou muito envolvido com a rota X, embora eu tenha 50% de chances de chegar ao fundo do poço, 35% de chances de chegar a um abismo e 12% de chances de chegar a lugares terríveis jamais previstos e imaginados. E possuo 3% de chances de encontrar a felicidade plena.

P38776 - Ah, entendo. Mas a rota A deve ter seus encantos.

P11144444 - A rota A é bastante promissora, tenho 75% de chances de encontrar a satisfação e chances equivalentes a 10% de encontrar a alegria, contra 15% de chances de pegar estradas tortuosas que levam a caminhos insalubres e perigosos.

P38776 – Bom, parece que sabemos por qual rota seguirá.

P11144444 - Sim – disse P11144444 olhando para os pés, rosto rubro, olhos vidrados – vou pela rota X.

P38776 meneou a cabeça, franziu a testa e abriu a boca levando os dedos espalmados para cima, quase que em um sinal de contenção. Porém, foram interrompidos pelo mecânico avisando que havia finalizado o conserto do veículo de P11144444. Esse, ainda envergonhado, rapidamente acenou para P38776 sem olha-lo nos olhos e seguiu seu caminho.

Dois anos depois P38776 dirigia na velocidade permitida naquela via rumo à oficina mecânica quando avistou P11144444 que por ali passava.

P38776 – Há quanto tempo não o vejo! Temos que marcar um churrasco com o pessoal.

P11144444 – Sem dúvidas, vamos combinar o mais breve possível.

P38776 – Preocupei-me com você, esperava encontra-lo na oficina para... ah, vejo que não cometeu nenhum desvario! A rota A foi generosa, seu veículo está em perfeito estado!

P11144444 – Fui pela rota X.

P38776 – Pois teve a sorte de chegar até a felicidade plena!?

P11144444 – Oh não! Cheguei ao fundo do poço. Isso logo após alcançar lugares terríveis jamais previstos e imaginados nos quais fiquei preso por longos períodos, impedido de voltar.

P38776 – Que coisa horrível! E obvia. Mas creio que aprendeu a lição e agora vai fazer escolhas mais acertadas. Está claro que foi por isso que nunca mais o vi na oficina.

P11144444 – Não – disse P11144444 contendo o riso no canto direito dos seus lábios entreabertos – Na rota X eu aprendi a consertar meu veículo permanentemente e quando aqui voltei já sabia como mantê-lo intacto. Não preciso mais ir à oficina.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Algemas

Parece que há algemas em meus pés. E eu queria que houvesse de fato, pois se pudesse sentir o frio do metal ao em torno dos meus tornozelos a minha estagnação ganharia sentido. Os maiores problemas são a liberdade, a independência, a maioridade e o livre arbítrio. Agora não sei como usar nada disso ao meu favor. Tantos olhares expectantes me são lançados aqui! Gostaria que vissem as algemas em meus pés.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Amanhã

Vivem como se não fossem morrer, como se a velhice não os esperasse amanhã. Envelhecem encenando a juventude subjetiva, travestidos de plásticas, cremes e modismos. Maquiando a decadência natural do corpo e mascarando, ao mesmo tempo, os indícios da maturidade. A ingenuidade da juventude parece diva porque vive no mundo das possibilidades, a maturidade é inerente à adaptação e aceitação de histórias imutáveis, mas quase sempre engrandecedoras. Por que o tempo é negado entre os nossos?

Acho louco pensar que pessoas vão morrer agarradas aos valores superficiais sem nem mesmo entender os motivos de suas frustrações.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Magnólia

Falei para a atendente da Satarbucks que chamo Magnólia. Talvez por bipolaridade, mas é pouco provável. Acho que é porque eu gosto de inventar. Comecei inventando um amigo imaginário na infância, era um rato azul. E na escola eu inventava acontecimentos mirabolantes com algumas amigas e depois contávamos para as outras meninas que ficavam morrendo de inveja das nossas histórias fantásticas. Uma psicóloga juvenil poderia dizer que éramos jovens deslocadas tentando nos encaixar e construir nossas identidades através de uma vida imaginada, inventada, ou seja, de mentira. Mas eu nunca vi as nossas criações como mentirosas embora esteja certa de que essa é uma forma de ver as coisas. Penso que éramos um grupo de meninas criativas demais para nos limitarmos ao palpável. Há uma linha muito tênue entre a mentira e a imaginação, por exemplo, gosto de olhar as pessoas nos restaurantes e imaginar como se chamam, o que fazem, onde moram, como vivem e o que pensam do mundo. Muito provavelmente as minhas suposições não condizem com as vidas dessas pessoas, mas constroem narrativas de personagens que interagem comigo no maravilhoso campo das possibilidades. Quando os divido com grupos de amigos todos se divertem e percebo então que muita gente adora brincar de suposições, usar os estereótipos e criar personagens que se deslocam da concretude, deixam de ser indivíduos desconhecidos perambulando nos shoppings, restaurantes e transportes públicos para existirem no mesmo espaço e tempo, mas como ideias que vem e vão. Então Magnólia entra na Starbucks e pede um brownie de doce de leite e um chai latte quente. Ela está com o rosto horrível, poderia estar doente ou ter passado a tarde toda chorando, porém só está cansada de mais um dia de férias, ela trabalha como cozinheira onze meses por ano e sai de férias durante um mês porque seus patrões assim determinam, certamente não por vontade própria. Odeia sair de férias, nunca tem dinheiro para viajar, não tem interesse em fazer turismo na cidade de São Paulo e fica sempre extremamente entediada. Seu marido é professor e trabalha de noite, chega cansado e só lhe faz companhia aos finais de semana. Como ambos moram perto da Avenida Paulista, Magnólia tem saído aos finais de tarde para se presentear com pequenos luxos como quitutes feitos por outras pessoas, embora pensa que os faria melhor e não valem o que custam. Magnólia tem distúrbios de ansiedade e faz tratamento com medicamentos controlados. Também é compulsiva por açúcar refinado e sexo, o que ninguém imagina à primeira vista. Senta no sofá confortável da Starbucks e sente-se afundar, gosta da sensação. Decide começar um planejamento para o resto das suas férias, ainda faltam quase vinte dias, quer algo que se aproxime da ideia que tem de lazer e diversão, mas não consegue pensar em nada, se tivesse filhos talvez passasse os dias cozinhando tortas de chocolate, mas o primeiro bebê é um plano para as próximas férias. Magnólia continua pensativa, afundada no sofá macio olhando para o copo vazio de chai latte até que aos poucos vai sumindo, deixa de existir quando começo a pensar no livro que preciso buscar na biblioteca. Já na porta da Satarbucks olho para o sofá vazio sendo ocupado por um homem de terno azul marinho, talvez um consultor do mercado financeiro...