Qual é o lixo que eu tento varrer para debaixo do tapete? Normalmente quando estou em um abismo emocional, que é como chamo o estado em que pensamentos negativos vem a mente de maneira acelerada e repetitiva e a ansiedade aumenta substancialmente, é quando a compulsão vem. As palavras chaves dos meus abismos emocionais são fracasso e não aceitação.
Percorrendo a minha história facilmente encontro situações nas quais eu me senti fracassada e não aceita, escrevi um pouco sobre isso no meu texto Medo. Superar a compulsão alimentar está diretamente ligado a reconhecer quando estamos em um abismo emocional e achar um caminho de volta para a serenidade, a parte difícil é que o único caminho de volta para a serenidade é olhar o lixo todo e inevitavelmente sentir dor, aceitar o medo, a frustração e tudo o que vier.
Uma mulher a quem admiro me disse na adolescência que se eu quisesse ofender meus oponentes em discussões bastava que eu os chamasse de frustrados, pois essa é uma ofensa certa uma vez que todos somos frustrados por um motivo ou outro. É verdade, a diferença é como lidamos com as nossas frustrações, a nossa vulnerabilidade e todas as decisões ruins que fazem parte de qualquer vida.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
terça-feira, 11 de junho de 2019
Relatos #compulsãoalimentar1
Porque quero falar de compulsão alimentar. O que eu sei? Que não é possível super compulsão alimentar só com dietas, que dietas restritivas apenas intensificam a compulsão, que é preciso entender os gatilhos para pausá-los, quanto maior o número de vezes que forem pausados menos aparecerão ao longo do tempo.
O que eu ganho durante um episódio de compulsão alimentar é o alívio imediato da minha ansiedade, eu tenho associado os meus episódios de compulsão alimentar com televisão mais frequentemente porque isso funciona como uma anestesia para o desconforto. Assim eu consigo distrair a mente dos sentimentos negativos e sentir apenas prazer.
Eu acho que não vale o custo x benefício. Depois do episódio de compulsão, além de eu ter que lidar com o meu desconforto emocional muitas vezes tenho que ligar com o desconforto gástrico causado por grandes quantidades de comida ou alimentos que contém grande teor de açúcar e outras substâncias que causam mal estar. Mesmo sabendo os contras eu volto a esse comportamento.
Tive a ideia de falar sobre compulsão alimentar para acertar mais em pausar meus gatilhos. Com todas as informações que tenho hoje sobre compulsão e alimentação de qualidade sei que dieta nenhuma vai me ajudar não importa em quantos nutricionistas, endócrinos ou clínicas de estética eu vá. Fui a muitas boas nutricionistas nos últimos anos que me ensinaram sobre alimentação e saúde e foi super válido, porém infelizmente só informação não cura.
Embora terapia e grupos de ajuda foram eficientes. Sei que existem milhões de pessoas no planeta na mesma luta que eu, sei que todos os compulsivos precisam de apoio e há momentos em que o apoio é fundamental para enfrentar a jornada de cura, mas o meu momento agora é organizar todo o conhecimento que já adquiri ao longo de mais de vinte e cinco anos e efetivamente refletir e aplicar na minha vida.
Sim, tenho compulsão alimentar desde a infância e posso seguramente dizer que há mais de vinte e cinco anos, mas durante todo esse tempo houveram anos em que eu estive muito bem, sem oscilação de peso e sem qualquer indício de compulsão. Alguns elementos são comuns nas épocas em que estive bem: Eu me sentia segura no meu relacionamento afetivo, no trabalho, fazia exercícios físicos intensos (ajudava com a ansiedade) ou tinha o cigarro como válvula de escape.
Eu gostava de fumar na janela do meu quarto, sentia um prazer enorme fazendo isso como se o cigarro fosse uma pausa das minhas angústias. Eu fumava muitas vezes mais de um cigarro para prorrogar o prazer e depois inevitavelmente tinha que lidar comigo mesma como é com a comida. Eu já não fumo mais há anos porque o cigarro destrói o corpo e se fumo tenho menos energia.
Alguns especialistas em reabilitação dizem que vício em comer é mais complexo que vício em álcool, cigarro, drogas e sexo, pois não vivemos sem comer. Faz bem a um viciado abandonar o objeto de seu vício, o cigarro e algumas drogas recreativas só fazem mal. Porém, sobre alguns casos de dependência, há benefícios em uma boa e esporádica taça de vinho, pessoas se viciam em analgésicos e outras substâncias que aliviam a dor, sexo é uma necessidade biológica. Não seria melhor entender a compulsão e achar um equilíbrio?
Realmente a comida envolve um leque amplo de complexidades pois o nosso corpo muda de acordo com a quantidade e qualidade de alimentos que ingerimos e esse aspecto é ligado a estética e aos padrões de beleza, então a alimentação, além da compulsão, envolve outros distúrbios como a anorexia e a bulimia. A ausência de comida ou o excesso de açúcar no sangue podem ser fatais e essa verdade pode fazer que enxerguemos a comida como algo ruim.
Uma das primeiras coisas que aprendi foi a importância de fazer as pazes com a comida, a comida pode ser nossa aliada nos oferecendo energia para uma rotina atribulada através de nutrientes e vitaminas que também ajudam nossos órgãos a funcionarem melhor e nos deixam mais bonitos e bem humorados. A comida é boa, essa é a lição mais básica de todas, aprender a usar a comida como aliada para inclusive evitar a compulsão.
Comer lanches saudáveis durante o dia, beber água e sentir prazer durante as refeições são armas contra a compulsão. É menos provável que aconteça um episódio de compulsão se não estamos sentindo fome, se estamos hidratados e se temos prazer na alimentação do dia a dia. Aprendi que não precisamos sofrer com uma alimentação restritiva ou ingerindo alimentos que não gostamos, há opções saudáveis e deliciosas e são esses alimentos que vão nos ajudar.
Aprendi com as nutricionistas que é muito mais eficaz, principalmente em casos de compulsão, acrescentar alimentos saborosos e nutritivos na dieta a restringir alimentos calóricos. Mesmo que comer pasta de amendoim com banana bem madura ou iogurte com frutas secas e castanhas (...) seja mais calórico na hora do lanche do que uma maçã, é menos provável que haja compulsão se foi prazeroso e adequado em termos de nutrientes no dia.
Podemos descobrir receitas mais saudáveis (e não necessariamente menos calóricas) para nossos pratos preferidos, aqueles que envolvem memórias afetivas e nos trazem conforto e podemos descobrir pratos de baixas calorias deliciosos para equilibrar na próxima refeição. Uma nutricionista me ensinou a me focar mais no meu corpo, nas sensações físicas, ele mesmo pede e encontra um equilíbrio em dias atípicos, se a alimentação típica tiver qualidade e for adequada.
Mesmo que a comida seja nossa aliada e pensando que por sorte não precisamos comer coisas que não nos dão prazer (comer sem prazer para quem gosta de comer é bem difícil) existe sofrimento sim envolvido em uma jornada de cura para a compulsão alimentar pois os gatilhos que levam a compulsão são gerados por stress, sentimentos ruins sobre a vida e nós mesmos para os quais precisamos olhar. Só conseguimos pausar o gatilho se olharmos para aquilo que estamos tentando evitar durante o episódio de compulsão.
Uma outra coisa legal que aprendi é que a cura não é sobre ter controle, é sobre aceitar o descontrole de algumas situações difíceis nas quais nos encontramos, aceitar a dor e o sofrimento para depois sentir paz e escolher conscientemente atitudes não destrutivas, mesmo que essas não sejam construtivas, mesmo que só reste a opção de respirar fundo e entender que não há mesmo como resolver dada situação, mas vai passar. Porque tudo passa e se transforma.
A cura é sobre lidar com frustrações e toda uma ideia que temos de nós mesmos, crenças que nos foram apresentadas durante uma vida e nunca questionamos porque tampouco as enxergamos. É sobre entender tudo que ganhamos e perdemos com a escolha de ter uma vida diferente, uma vida sem a compulsão. A cura é sobre conhecer limites e essências. Envolve dor.
Comer lanches saudáveis durante o dia, beber água e sentir prazer durante as refeições são armas contra a compulsão. É menos provável que aconteça um episódio de compulsão se não estamos sentindo fome, se estamos hidratados e se temos prazer na alimentação do dia a dia. Aprendi que não precisamos sofrer com uma alimentação restritiva ou ingerindo alimentos que não gostamos, há opções saudáveis e deliciosas e são esses alimentos que vão nos ajudar.
Aprendi com as nutricionistas que é muito mais eficaz, principalmente em casos de compulsão, acrescentar alimentos saborosos e nutritivos na dieta a restringir alimentos calóricos. Mesmo que comer pasta de amendoim com banana bem madura ou iogurte com frutas secas e castanhas (...) seja mais calórico na hora do lanche do que uma maçã, é menos provável que haja compulsão se foi prazeroso e adequado em termos de nutrientes no dia.
Podemos descobrir receitas mais saudáveis (e não necessariamente menos calóricas) para nossos pratos preferidos, aqueles que envolvem memórias afetivas e nos trazem conforto e podemos descobrir pratos de baixas calorias deliciosos para equilibrar na próxima refeição. Uma nutricionista me ensinou a me focar mais no meu corpo, nas sensações físicas, ele mesmo pede e encontra um equilíbrio em dias atípicos, se a alimentação típica tiver qualidade e for adequada.
Mesmo que a comida seja nossa aliada e pensando que por sorte não precisamos comer coisas que não nos dão prazer (comer sem prazer para quem gosta de comer é bem difícil) existe sofrimento sim envolvido em uma jornada de cura para a compulsão alimentar pois os gatilhos que levam a compulsão são gerados por stress, sentimentos ruins sobre a vida e nós mesmos para os quais precisamos olhar. Só conseguimos pausar o gatilho se olharmos para aquilo que estamos tentando evitar durante o episódio de compulsão.
Uma outra coisa legal que aprendi é que a cura não é sobre ter controle, é sobre aceitar o descontrole de algumas situações difíceis nas quais nos encontramos, aceitar a dor e o sofrimento para depois sentir paz e escolher conscientemente atitudes não destrutivas, mesmo que essas não sejam construtivas, mesmo que só reste a opção de respirar fundo e entender que não há mesmo como resolver dada situação, mas vai passar. Porque tudo passa e se transforma.
A cura é sobre lidar com frustrações e toda uma ideia que temos de nós mesmos, crenças que nos foram apresentadas durante uma vida e nunca questionamos porque tampouco as enxergamos. É sobre entender tudo que ganhamos e perdemos com a escolha de ter uma vida diferente, uma vida sem a compulsão. A cura é sobre conhecer limites e essências. Envolve dor.
quarta-feira, 21 de novembro de 2018
Passeio de hoje
Hoje eu sinto amor. Apenas amor. Hoje eu sou amor.
Eu gosto de caminhar pelas ruas de Moema, me sinto viva com
o movimento da cidade e fico feliz ao passar com os meus filhos nas paisagens da minha infância e perceber que mudamos,
eu e os lugares.
E quando eu chego no meu trabalho e olho todos aqueles
rostos, penso que nada mais poderia ter me tirado do lugar comum tão
brutalmente quanto conviver com cada pessoa com quem dividi a mesa do almoço e
compartilhei risadas e fofocas. As vezes frustrações, as vezes cerveja. Eu
aprendi tanto com o que disseram, com o que eu vi e com o que foi me
acontecendo. Eu fiz quase todos os dias o meu melhor e me transformei.
Hoje eu andei por aí fazendo as mesmas coisas que eu faço
todos os dias cheia de mim mesma. Hoje eu me sinto tão eu usando o meu
tênis azul preferido e falando das coisas nas quais acredito.
Hoje eu acredito
mais.
Eleições
Hoje eu estava voltando da
fisioterapia (ferrei a coluna, parte muscular) e resolvi almoçar na padaria. Um
dos meus pequenos e frequentes prazeres nos dias chuvosos é almoçar cappuccino
e pão de queijo na padaria e hoje caprichei, ignorei o pão de queijo integral e
pedi logo o tradicional com uma torre de catupiry em cima. Depois passei no
supermercado pra comprar quatro itens que preciso levar a um jantar de noite e
o caixa de poucos volumes estava quebrado e as outras filas estavam
gigantescas. Então entrei no caixa prioritário e quando fui questionada por
estar ali estufei a barriga de pão de queijo e disse "gestante não
pode?"
Esse fato me fez pensar nas
eleições. Minha família vai votar no Alckmin, Bolssonaro ou Amoedo. O pessoal
do meu trabalho é Haddad, eu trabalho com gente que diz que só estudou porque
contou com o Proune, só tem casa própria porque com muito esforço juntou 15 mil
e financiou pelo Minha Casa Minha Vida e que todos os partidos sem exceção são
corruptos, agora mudar vida só PT muda. Tem uma mulher que sustenta marido e
filhos com salário mínimo + bolsa família, o marido não arruma trabalho e eles
moram faz um ano em um assentamento sem terra porque não conseguem pagar
aluguel. No trabalho é 80% essa realidade.
Já em Moema nós temos grupos de
empreendedores e empresários, de moradores unidos pela segurança, de apoio
materno (s2), de revitalização de praças e muitos outros, e por causa das redes
sociais que conectam a gente o tempo todo eu sei que a situação está feia em
relação a segurança, essa semana já foram três assaltos no bairro à mão armada
com direito a tiro. Nessas horas me da uma vontadezinha de votar no Bolssonaro
porque gente, eu quero me sentir segura quando andar a pé no meu bairro
segurando meu guarda-chuva pink em direção a padaria e não sei como conseguir
isso, aí quando alguém fala que vai aumentar a segurança o olho até brilha.
Mas eu fico pensando nessa
questão de cidadão andar armado e todos os acidentes que acontecem, tipo esses
adolescentes loucos que saem por aí matando geral, ou até mesmo um conhecido que
era depressivo e se matou com a arma do pai, ou gente que atirou em civil
achando que era legítima defesa por engano. Eu acho muito legal fortalecer a
polícia, eu estive no mundo dos concurseiros e sei que tem gente que nasceu pra
ser policial porque é idealista mesmo e quer fazer diferença, acho que esses
meninos e meninas devem ser muito mais valorizados. Mas o que acontece se a
polícia corrupta for fortalecida com mais poderes de ação? Falo desses casos
não raros de policiais que matam suspeito a sangue frio sem mesmo ter crime
comprovado.
Eu acho ótimo reduzir a
maioridade penal, diminuir a flexibilidade com infrações e deixar criminoso
preso na cadeia sem indulto disso e daquilo. Mas as cadeias estão abarrotadas
com ladrão de galinha junto com estuprador e não tem proposta de divisão por
enquadramento ou reabilitação social quando pertinente, vai enfiar essa galera
toda onde gente?
Sobre as propostas para a
Educação, tem mesmo que acabar com a aprovação compulsória e fazer seja lá o
que for pra colocar disciplina nas escolas porque eu, como funcionária da
Educação, sei que as escolas públicas são roubadas e sucateadas pela própria
comunidade e os professores muitas vezes vão trabalhar com medo e de fato são agredidos
por alunos e precisam ser omissos. Os Diretores de Escola acabam fazendo acordo
territorial com traficantes locais ou PCC pra garantir a segurança da escola. A
educação, que é a base de uma sociedade em ascenção, é uma piada de mal gosto.
Gosto de privatização e
terceirização. Não faz sentido o Estado controlar o que não é estratégico.
Desde que as merendas, a segurança e a limpeza foram privatizadas na Educação
os custos para o Estado de fato reduziram, mas é questionável o aumento da eficiência
desses serviços. O problema da privatização é a corrupção, os processos
licitatórios não são transparentes e empresas que não cumprem o contrato por
ineficiência estão operando em troca de propina para funcionários públicos que
fazem vista grossa na supervisão. Será que trocando os gestores desses
contratos a propina seria recusada? A grana é bem alta.
E esse negócio da carteira de
trabalho opcional verde e amarela que o jovem pode escolher para trabalhar sob
outras regras que não são a CLT? É mesmo o jovem desempregado que vai escolher
ou a empresa? Só pensando, esse ponto não preocupa porque está dentro das
questões da reforma trabalhista e é necessário mesmo repensar as relações de
trabalho, o mundo mudou e embora Carl Marx seja atual em suas reflexões ele
perdeu uma parte importante do processo que envolve novas tecnologias e
trabalho imaterial depois que bateu as botas. Só não entendi ainda porque o
Bolssonaro é contra a reforma da previdência, a previdência é uma bomba
relógio.
Não acho pertinente comparar Bolssoraro
com Hitler porque estamos em um outro momento político mundial onde não se pode
tão facilmente sair queimando gays e ateus, eu sei que tem acontecido coisas
equivalentes na África e Oriente Médio por exemplo, mas relativizações a parte,
não acho um cenário próximo pra gente. Agora pensar em uma ditadura é
pertinente, não na ditadura dos nossos pais, mas um outro tipo de ditadura que
tem como centro o desequilíbrio de poderes, com um Estado que fortalece o poder
de polícia e restringe os direitos dos cidadãos que não podem reivindicar as
injustiças que acreditam que sofrem porque não há mais espaço para reivindicar.
Medo
Hoje me perguntaram qual meu maior medo. Eu já tive medos
que me deixaram literalmente paralisada, com falta de ar e taquicardia. O
primeiro que consigo lembrar foi o medo de não ser aceita, eu sentia que não
pertencia a nenhum grupo e a nenhum lugar. Acredito que esse foi o medo que me
perseguiu por mais tempo e que me assombrou das maneiras mais cruéis.
Eu cresci escutando que não era boa o suficiente porque era
gorda, inútil e incapaz. Diziam que se eu continuasse gorda nunca teria um
namorado e a minha maneira de me expressar era inadequada. Também escutei
muitas vezes que era bonita, criativa e inteligente, talvez tanto quanto
escutei o contrário, mas não sei por qual motivo acreditei no pior.
Quando se chega na idade adulta é mais fácil entender a
dinâmica dos jogos emocionais das relações, todos queremos afeto, porém entendemos
o afeto e lidamos com a falta dele de maneiras muito variadas. Na maior parte das vezes não vale a pena
tentar entender a visão do outro, cada um tem que mergulhar no seu próprio
universo caso queira buscar paz.
O medo fez com que eu parecesse uma criança travada, embora
sempre tive uma essência extrovertida e brincalhona que só as pessoas mais íntima
puderam conviver. Na escola durante o ensino fundamental eu me sentia muito
insegura, não conseguia interagir com as outras crianças e me
relacionar mesmo tendo vontade. Não tinha amigos.
Já no ensino médio eu fiz amigos e passei a ter problemas de
comportamento na escola quando percebi que chamar a atenção era uma maneira de
fazer parte dos grupos mais populares, mas mesmo com a aceitação dos colegas da escola eu me sentia coadjuvante em qualquer situação.
Não conseguia ser espontânea, estava a maior parte do tempo
angustiada e de tão moldada às expectativas alheias e movida pelo
pavor de não ser aceita soterrei a minha
personalidade, me escondia dentro de roupas largas ou tentava imitar
outras meninas com corpos e gostos que não eram os meus. Acreditava que se eu perdesse peso e ganhasse o meu próprio dinheiro seria tudo diferente.
Curiosamente no campo amoroso transitei mais tranquilamente,
acredito que eu sempre fui muito boa nas relações mais íntimas porque ao me
sentir confortável com alguém eu conseguia me expressar, o que era uma
necessidade enorme. A minha baixa autoestima atrapalhava minhas relações
afetivas, mas nunca tive medo de me relacionar ou pensei que não fosse merecedora
de amor.
O meu segundo maior medo foi não conseguir me manter. Me sentia
péssima pelo meu jeito desastrado, acreditava que era burra e não
conseguiria realizar nenhuma tarefa tão bem como outras pessoas eram capazes de
fazer. Levei essas crenças para o ambiente profissional e me sentia muito insegura
ao apresentar ideias, falar a minha opinião ou simplesmente interagir, me
sentia acuada frente a figuras de autoridade.
Eu me pressionava para conseguir estabilidade em um emprego porque
não queria mais depender do meu pai financeiramente. Cresci escutando o quanto
as coisas eram caras e difíceis e o quanto era sacrificante arcar com o meu
custo. O meu pai tinha um comportamento que variava entre dois extremos, ele
podia ser um pai extremamente amoroso como também podia ser violento a ponto de
me machucar fisicamente e dizer coisas que me fragilizavam.
Não conseguia enquadrar o meu pai no papel do vilão porque
tivemos uma relação divertida na minha infância e eu me sentia protegida, me
sentia valorizada quando ele se interessava mais do que qualquer pessoa pelo
meu hobbie de escrever e ilustrar histórias. Na adolescência ainda éramos
próximos, morei com ele por muitos anos e tivemos momentos bons.
Porém por volta dos meus dezesseis anos começamos a brigar e
ele reagia com violência, tanto física quanto verbal, além de trazer as situações
que mais me machucavam para as discussões.
Agora eu não sei mais porque brigávamos, talvez porque eu
não estudava o suficiente, chegava tarde em casa e nunca ouvia uma ofensa
calada. Sempre brigávamos por motivos estúpidos e depois passávamos um tempo
tendo um bom relacionamento, o que me deixava confusa.
Pensava que ele estava cuidando de mim como sabia e que por eu sempre revidar os xingamentos tinha culpa compartilhada nas discussões. Hoje eu sei que fui vítima porque ele era o adulto e era mais forte do que eu. Eu não tinha qualquer condição de me defender das investidas físicas e não tinha clareza ou maturidade para encontrar a melhor maneira de me defender.
Pensava que ele estava cuidando de mim como sabia e que por eu sempre revidar os xingamentos tinha culpa compartilhada nas discussões. Hoje eu sei que fui vítima porque ele era o adulto e era mais forte do que eu. Eu não tinha qualquer condição de me defender das investidas físicas e não tinha clareza ou maturidade para encontrar a melhor maneira de me defender.
Quando finalmente olhei para a situação com
mais discernimento senti raiva de mim por não ter ido embora da casa do meu pai
nas diversas chances que eu tive. Depois eu entendi que a minha falta de reação
era fruto da minha autoestima naufragada, eu me sentia incapaz de prover o meu
próprio sustento e frágil demais para enfrentar uma vida com mais autonomia.
Eu não acreditava em mim e por isso eu inventava desculpas
para permanecer na casa do meu pai “ fico até terminar a graduação ou até eu me sentir estável
nesse emprego”. Durante muitos anos eu também acreditei que poderia consertar
as coisas com meu pai, que nós poderíamos superar todas aquelas brigas e dar um
desfecho para as memórias doloridas que eu gostaria de não ter.
Um dia percebi que eu romantizava a realidade para
não ter que lidar com toda a dor de aceitar a minha história, ainda me incomoda lembrar. Meu pai e eu convivemos bem hoje por não morarmos juntos e não nos questionarmos sobre nada, mas principalmente pela constante presença dos meus filhos que suaviza ao redor de onde quer que estejamos.
Eu perdi o medo de não conseguir me manter financeiramente, eu acredito em possibilidades infinitas e em uma rede de pessoas de bem que me cercam e amam. Hoje eu não consigo mais saber se ainda tenho algum medo desses que paralisam, talvez apenas frustrações com as quais tenho que lidar.
Eu perdi o medo de não conseguir me manter financeiramente, eu acredito em possibilidades infinitas e em uma rede de pessoas de bem que me cercam e amam. Hoje eu não consigo mais saber se ainda tenho algum medo desses que paralisam, talvez apenas frustrações com as quais tenho que lidar.
sábado, 15 de setembro de 2018
Entrevista
Marina chegou atrasada por causa do trânsito, estava preocupada e queria causar uma boa impressão na entrevista de emprego.
Carlos estava contratando um profissional de Relações Públicas para cuidar da imagem do seu comércio de vinhos, gostava de realizar as entrevistas em um Café próximo ao escritório porque pensava que o ambiente informal ajudava com que os candidatos ficassem confortáveis.
Marina estava tensa, não gostava de vinhos e estava exausta da rotina enlouquecedora que costumava ter como relações públicas, indo a eventos, mediando conflitos, precisando ser simpática com pessoas com as quais ela jamais simpatizaria.
Carlos considerava o currículo de Marina muito bom, ela estudou em universidades de primeira linha e tinha experiência em multinacionais varejistas e pequenos comércios. Achava Marina muito nova, ela parecia pessoalmente ainda mais jovem, estava levemente descabelada e aparentava estar nervosa.
Marina sentou na mesa que Carlos ocupava, pediu um capuccino e começou a escutar o que ele tinha a dizer a respeito das expectativas sobre o comércio de vinhos e o trabalho que o candidato contratado deveria fazer. De repente Marina pediu licença e levantou para conversar com um senhor que trabalhava no Café.
Carlos começou a ficar incomodado com a displicência da entrevistada. Então Marina voltou à mesa, se desculpou e contou a Carlos que candidatou-se para a posição de garçonete em aberto que estava no anúncio fixado na parede daquele estabelecimento, ela havia sido aceita. Eles procuravam alguém que falasse inglês, o salário era razoável e não precisaria trabalhar aos finais de semana e nem depois das 18h, explicou.
Marina saiu dizendo que o café de Carlos era por sua conta, já estava pago. Por último desejou boa sorte e andou até a porta sem olhar pra trás.
Carlos estava contratando um profissional de Relações Públicas para cuidar da imagem do seu comércio de vinhos, gostava de realizar as entrevistas em um Café próximo ao escritório porque pensava que o ambiente informal ajudava com que os candidatos ficassem confortáveis.
Marina estava tensa, não gostava de vinhos e estava exausta da rotina enlouquecedora que costumava ter como relações públicas, indo a eventos, mediando conflitos, precisando ser simpática com pessoas com as quais ela jamais simpatizaria.
Carlos considerava o currículo de Marina muito bom, ela estudou em universidades de primeira linha e tinha experiência em multinacionais varejistas e pequenos comércios. Achava Marina muito nova, ela parecia pessoalmente ainda mais jovem, estava levemente descabelada e aparentava estar nervosa.
Marina sentou na mesa que Carlos ocupava, pediu um capuccino e começou a escutar o que ele tinha a dizer a respeito das expectativas sobre o comércio de vinhos e o trabalho que o candidato contratado deveria fazer. De repente Marina pediu licença e levantou para conversar com um senhor que trabalhava no Café.
Carlos começou a ficar incomodado com a displicência da entrevistada. Então Marina voltou à mesa, se desculpou e contou a Carlos que candidatou-se para a posição de garçonete em aberto que estava no anúncio fixado na parede daquele estabelecimento, ela havia sido aceita. Eles procuravam alguém que falasse inglês, o salário era razoável e não precisaria trabalhar aos finais de semana e nem depois das 18h, explicou.
Marina saiu dizendo que o café de Carlos era por sua conta, já estava pago. Por último desejou boa sorte e andou até a porta sem olhar pra trás.
terça-feira, 3 de maio de 2016
Relacionamento Abusivo
O medo da violência ainda existe porque a violência ainda existe.
Ela nunca me respeitou como homem ou como indivíduo, ela já me ofendeu pelo meu gênero, pelos meus traumas e também pelos meus valores e opiniões. Por não conseguir me afastar completamente dela eu fui testando uma distância na qual estivesse seguro para não correr o risco de desrespeitá-la. Até eu entender que não existe distância segura, até eu começar a implementar a maior distância possível.
Até eu me conformar que ela sempre me deu aquilo que teve pra dar e que suas oscilações são fruto de qualquer coisa que eu não poderia nunca entender, amenizar ou me responsabilizar. Eu suspeito que ela não conhece uma relação de paz, pois vive dizendo que sente falta de quando estávamos juntos, tempos esses que foram péssimos, violentos, cheios de brigas, desrespeito e muito, muito medo.
Como sempre também existiu afeto entre nós e como paradoxalmente ela fez muito por mim, eu posso entender e me perdoar por não ter percebido que eu estava em um relacionamento abusivo. Eu entendo as outras pessoas que também estão ou estiveram em um relacionamento similar. Elas olham para o afeto que está tão misturado com a violência e ficam tentando separar. Não da pra separar, mas tem uma hora da nossa vida que a gente não vê que não da pra separar.
Quando a violência e a falta de respeito vão ficando mais frequentes a nossa autoestima vai caindo proporcionalmente, até que chegamos a duvidar se somos culpados por provocar a violência em quem está nos violentando. A maioria das vezes a violência é tão emaranhada com o afeto que as pessoas que estão olhando a situação de fora também não percebem, principalmente quando não há feridas visíveis. E se ninguém percebe ou reconhece a violência, ela se propaga como algo natural.
Quem apanha dentro de casa pode não denunciar por medo, vergonha ou simplesmente por acreditar que aquele machucado foi resultado de um momento de descontrole de uma briga comum, de uma relação comum. Quem sofre assedio moral contínuo dentro de casa pode não perceber tão evidentemente a relação abusiva como perceberia se fosse no trabalho ou na rua, pode acabar acreditando que é normal escutar ofensas constantes. Relacionamento abusivo pode existir em diversas relações familiares e de amizade, não apenas em casais.
Acredito que algumas pessoas crescem em ambientes cheios de relacionamentos abusivos e para elas é ainda mais difícil se ver no papel de vítima e ver a outra pessoa no papel de agressor. Ainda mais quando os moldes desse tipo de relação saem do clichê homem e mulher (casal) e se dão entre pais e filhos, irmãos, professor e aluno, funcionários de uma mesma empresa etc. Eu sempre soube que meu relacionamento com ela estava errado, mas acreditava que era só o temperamento dela, fruto da infância conturbada, o que também não deixa de ser.
Foi com o tempo, terapias, leituras e um grande poder de reflexão que eu acredito que hoje tenho que eu percebi que não era só isso. Percebi que ninguém no mundo nunca poderia ter me batido ou humilhado tanto. Então eu abri mão de ter uma relação com ela, embora confesso que as vezes me pego pensando que poderíamos chegar ao ponto em que só existe afeto. Mas não é possível separar, já sei.
Ela nunca me respeitou como homem ou como indivíduo, ela já me ofendeu pelo meu gênero, pelos meus traumas e também pelos meus valores e opiniões. Por não conseguir me afastar completamente dela eu fui testando uma distância na qual estivesse seguro para não correr o risco de desrespeitá-la. Até eu entender que não existe distância segura, até eu começar a implementar a maior distância possível.
Até eu me conformar que ela sempre me deu aquilo que teve pra dar e que suas oscilações são fruto de qualquer coisa que eu não poderia nunca entender, amenizar ou me responsabilizar. Eu suspeito que ela não conhece uma relação de paz, pois vive dizendo que sente falta de quando estávamos juntos, tempos esses que foram péssimos, violentos, cheios de brigas, desrespeito e muito, muito medo.
Como sempre também existiu afeto entre nós e como paradoxalmente ela fez muito por mim, eu posso entender e me perdoar por não ter percebido que eu estava em um relacionamento abusivo. Eu entendo as outras pessoas que também estão ou estiveram em um relacionamento similar. Elas olham para o afeto que está tão misturado com a violência e ficam tentando separar. Não da pra separar, mas tem uma hora da nossa vida que a gente não vê que não da pra separar.
Quando a violência e a falta de respeito vão ficando mais frequentes a nossa autoestima vai caindo proporcionalmente, até que chegamos a duvidar se somos culpados por provocar a violência em quem está nos violentando. A maioria das vezes a violência é tão emaranhada com o afeto que as pessoas que estão olhando a situação de fora também não percebem, principalmente quando não há feridas visíveis. E se ninguém percebe ou reconhece a violência, ela se propaga como algo natural.
Quem apanha dentro de casa pode não denunciar por medo, vergonha ou simplesmente por acreditar que aquele machucado foi resultado de um momento de descontrole de uma briga comum, de uma relação comum. Quem sofre assedio moral contínuo dentro de casa pode não perceber tão evidentemente a relação abusiva como perceberia se fosse no trabalho ou na rua, pode acabar acreditando que é normal escutar ofensas constantes. Relacionamento abusivo pode existir em diversas relações familiares e de amizade, não apenas em casais.
Acredito que algumas pessoas crescem em ambientes cheios de relacionamentos abusivos e para elas é ainda mais difícil se ver no papel de vítima e ver a outra pessoa no papel de agressor. Ainda mais quando os moldes desse tipo de relação saem do clichê homem e mulher (casal) e se dão entre pais e filhos, irmãos, professor e aluno, funcionários de uma mesma empresa etc. Eu sempre soube que meu relacionamento com ela estava errado, mas acreditava que era só o temperamento dela, fruto da infância conturbada, o que também não deixa de ser.
Foi com o tempo, terapias, leituras e um grande poder de reflexão que eu acredito que hoje tenho que eu percebi que não era só isso. Percebi que ninguém no mundo nunca poderia ter me batido ou humilhado tanto. Então eu abri mão de ter uma relação com ela, embora confesso que as vezes me pego pensando que poderíamos chegar ao ponto em que só existe afeto. Mas não é possível separar, já sei.
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